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Obesidade: Conheça novos tratamentos e a mudança cultural sobre a doença

Nos últimos 20 anos, a prevalência de obesidade entre a população adulta no Brasil mais do que dobrou, passando de 12,2% para 26,8% segundo o IBGE


Por Martha San Juan França — Para o Valor, de São Paulo 12/08/2022 05h04


Obesidade é uma doença crônica. Complexa, multifatorial, uma epidemia global da qual o Brasil não escapa. Na verdade, aqui, essa doença só tem aumentado. Nos últimos 20 anos, a prevalência de obesidade entre a população adulta mais do que dobrou, passando de 12,2% para 26,8% segundo o IBGE. Estima-se que, se a taxa de crescimento continuar a mesma, poderemos chegar a quase o mesmo índice dos Estados Unidos, o país do hambúrguer e das batatas fritas, onde mais de 36% da população vive com sobrepeso ou obesidade. Se isso já não fosse preocupante, os médicos alertam que o acúmulo de gordura corporal contribui para uma lista enorme de problemas de saúde, como hipertensão, doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2, além de artrose, refluxo esofágico e diversos tipos de tumor. Mas por que, apesar de todas essas evidências, as pessoas, incluindo os profissionais de saúde, têm tanta relutância em considerar a obesidade uma doença e tratá-la como tal?

Para começar, essa é uma definição relativamente nova. Foi só em 2013 que a Associação Médica Americana (AMA) estabeleceu oficialmente o conceito de obesidade como doença crônica. E só em 2015 a Organização Mundial da Saúde (OMS) colocou como meta mundial interromper o aumento das taxas de excesso de peso, com o objetivo de conter o número de mortes por doenças não transmissíveis até 2025 - uma meta que já se sabe não será alcançada. Não por acaso, a epidemia foi apelidada de globesidade. Durante décadas, os pesquisadores que trabalhavam com esse tema se concentravam na parte comportamental, como se a gordura corporal fosse uma condição individual, decorrente da incapacidade de controlar a balança, fechar a boca e praticar atividade física, em vez de resultado de alterações moleculares e metabólicas do organismo. Muitas culturas viam a obesidade como resultado de defeitos de caráter, não sendo uma coincidência que a gula fosse considerada um dos sete pecados capitais. O excesso de peso era, e ainda é, associado à preguiça, gula, falta de força de vontade e outros estereótipos negativos.

“O controle do peso é um fenômeno complexo que não depende exclusivamente da força de vontade”, contrapõe a endocrinologista Maria Edna de Melo, diretora da Abeso (Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica). A obesidade pode ser medida de acordo com o IMC (Índice de Massa Corporal): o peso da pessoa dividido pela sua altura ao quadrado. Se o resultado for superior a 25, a pessoa está acima do peso. Se passar de 30, é obesa, e se tiver doenças associadas, como diabetes e hipertensão, precisa urgentemente rever seus hábitos e buscar ajuda. Herdar dos pais genes que favorecem o acúmulo de energia e tornam mais difícil a pessoa emagrecer explica em parte o problema. “A humanidade foi selecionada para armazenar energia e guardá-la para períodos de restrição, quando a alimentação é escassa”, explica a diretora da Abeso. “Só que o mundo mudou e hoje temos abundância de alimentos. Estamos vulneráveis para adquirir obesidade e acumular gordura ao longo da vida. Nesse caso, pode existir uma predisposição tanto genética quanto biológica.” Essa questão explica por que a obesidade se tornou uma epidemia mundial que só aumentou nos últimos 50 anos. “Nesse período, as mudanças no sistema alimentar, que estimularam o consumo de produtos prontos para o consumo, processados e ultraprocessados, como refrigerantes, biscoitos, refeições congeladas, embutidos etc., foram acompanhados de mudanças de estilo de vida da população, que passou a ser mais sedentária”, afirma a nutricionista Ana Paula Bortoletto Martins, pesquisadora do Nupens/USP (Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde). “Ao mesmo tempo que as grandes indústrias alimentícias começaram a desenvolver tecnologias que melhoraram a produção de alimentos, também se registrou o aumento da composição de gordura saturada na dieta da população.


A equipe do Nupens, do qual Martins faz parte, foi pioneira em associar as mudanças no processamento industrial de alimentos com a epidemia de obesidade que atinge a maior parte dos países do mundo, até mesmo aqueles de baixa renda. No Brasil, não por coincidência, a população passou a apresentar excesso de peso nas últimas décadas, quando se verificou a troca da alimentação tradicional por um cardápio rico em gorduras saturadas e de alto teor calórico e o marketing dos industrializados na TV e internet tornou-se mais disseminado, inclusive entre as crianças e adolescentes. As pesquisas mostraram que este não é um problema apenas de quem vive em luta com a balança. Se antes muitas famílias tinham dificuldade de acesso a alimentos prontos ou industrializados, hoje refrigerantes, pacotes de macarrão instantâneo, bolachas recheadas e salgadinhos se tornaram mais baratos e disponíveis do que comida in natura. Em consequência, tanto a fome como a crescente epidemia de obesidade atingem a população mais vulnerável.

Até a década de 1990 se acreditava que a ingestão de grandes quantidades de gordura por meio do consumo de alimentos industrializados causasse por si só a obesidade. Nos últimos anos foi demonstrado que isso ocorre não apenas por ser a gordura rica em calorias, mas também por promover danos neuronais. Segundo o médico Lício Velloso, da Unicamp, que dirige o Centro de Pesquisa em Obesidade e Comorbidades, hoje se sabe que o consumo em excesso de gordura saturada também causa uma inflamação no hipotálamo, que faz com que os neurônios dessa região do cérebro, que controlam a fome e o equilíbrio energético, funcionem de forma anômala.

Estudos realizados em vários países e também pelo centro dirigido por Velloso, composto por mais de 80 pesquisadores da Unicamp, USP, Unesp e Unifesp, relacionaram o consumo em excesso de gordura saturada com o funcionamento da região do cérebro que controla a fome. “Quando o hipotálamo funciona direito, você come a quantidade de alimento suficiente para ser saudável e não acumula excesso de energia no organismo, ou seja, não vai ser obeso”, explica Velloso. “Quando você desenvolve uma alteração no funcionamento desses neurônios, eles perdem a capacidade de se ligar à insulina, que facilita a captação de glicose nas células, uma situação comum em pessoas obesas ou diabéticas. Dessa forma, você não controla adequadamente a fome e a sensação de saciedade e passa a comer cada vez mais.” Segundo o médico, o problema é cumulativo. “Uma pessoa que come demais e de forma inadequada desde a infância tem mais risco de desenvolver esse tipo de dano no hipotálamo e, por consequência, tornar-se obesa.” Os estudos mostraram também que praticar exercícios físicos, além de queimar calorias, ajuda a reduzir a inflamação nos neurônios do hipotálamo e a restabelecer a sensação de saciedade. Outros problemas como o sono desregulado, o estresse, diversas alterações hormonais e emocionais também podem influenciar o aumento de peso.

Muitas vezes, a vontade de comer não surge por uma necessidade biológica, em que o corpo de fato precisa de calorias, mas está relacionada ao prazer de ingerir determinados alimentos, em geral e não por acaso mais gordurosos, açucarados e criados para serem mais palatáveis. “Dietas restritivas, sem gosto, sem prazer, também assustam o cérebro e reforçam o chamado efeito sanfona”, observa a nutricionista Sophie Deram, pesquisadora no Ambulim (Ambulatório do Programa de Transtornos Alimentares do Hospital das Clínicas da USP). “O mais adequado é comer melhor, e não menos. Caprichar na qualidade, consumir mais comida fresca e caseira. Adotar um comportamento alimentar melhor, mais consciente e menos restritivo.” As descobertas sobre os circuitos neuronais da fome e da saciedade abriram a possibilidade de encontrar alvos para medicamentos mais eficazes para tratar a obesidade. Os pesquisadores da farmacêutica dinamarquesa Novo Nordisk desenvolveram nos últimos dez anos uma nova geração de fármacos, a princípio para controlar o diabetes tipo 2 e, mais recentemente, a obesidade. Esses medicamentos são capazes de imitar o efeito do GLP-1, um tipo de hormônio produzido pelo intestino que aumenta a secreção de insulina e envia sinais de saciedade para o cérebro.

Faz parte da primeira geração desses medicamentos chamados de análogos de GLP-1 a liraglutida, que chega a reduzir de 9% a 10% do peso. Segundo um estudo publicado no ano passado no “New England Journal of Medicine”, a semaglutida, um segundo fármaco aprovado inicialmente contra o diabetes, reduz cerca de 15% ou mais do peso. Outras farmacêuticas desenvolvem pesquisas com o mesmo princípio. A Elly Lilly já anunciou bons resultados com a tirzepatide, capaz de reduzir 20% do peso; e a Pfizer, AstraZeneca, além de várias startups, também estudam versões desse hormônio. A liraglutida já é utilizada no Brasil para o tratamento da obesidade e foi aprovada pela Anvisa em 2016. Já a semaglutida, aprovada em junho nos Estados Unidos, é usada no Brasil off label (com o aval médico, mas fora da indicação prevista em bula). A diferença principal está na frequência: enquanto a liraglutida precisa de uma aplicação diária, a semaglutida tem mais longa duração, podendo ser aplicada uma vez por semana.

“As medicações atuais são infinitamente mais avançadas do que as que existiam antes e que eram derivadas de anfetaminas e apresentavam efeitos colaterais e rebote. Hoje elas quase ameaçam a cirurgia bariátrica no sentido de resultado”, comenta a psicóloga clínica Andrea Levy, coordenadora do Instituto Obesidade Brasil.

Só há um problema que ainda não foi resolvido. A programação dos corpos das pessoas funciona para levá-las de volta ao seu peso inicial. Assim, tão logo elas param de tomar o remédio, voltam a adquirir o peso perdido. Portanto, esses medicamentos contra obesidade, como no caso de outras doenças crônicas, precisam ser tomados o resto da vida. Eles também não agem sozinhos, requerendo ao mesmo tempo uma mudança no estilo de vida. Ou seja, ninguém escapa de ter de adotar dietas mais saudáveis e exercícios físicos, além de ser necessário o acompanhamento de um médico especialista.

“Quando falamos de reduzir a obesidade, não significa magreza”, tranquiliza a nutróloga Andrea Pereira, com doutorado em obesidade e cirurgia bariátrica pela Endocrinologia da Unifesp. Por isso, a Abeso e a SBEM (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia) estão propondo uma nova classificação de quanto é preciso emagrecer para ser saudável. O cálculo parte da porcentagem do peso máximo que uma pessoa alcançou na vida. Se, por exemplo, o IMC for entre 30 e 39,9 kg/m2, perdas que representam de 5% a 10% do valor máximo alcançado indicam uma obesidade reduzida. Perdas acima de 10% apontam para uma obesidade controlada, com uma redução de risco importante para a saúde.

A engenheira química Katia Mello chegou a pesar mais de 100 kg antes de encarar a obesidade como uma doença. “Era uma formiga, comia muito doce, pão e quanto mais comia, mais tinha vontade de comer”, lembra. “Passei por vários endocrinologistas que pediam para eu me controlar, fechar a boca.” Até que entendeu que aquilo não era sustentável e, com auxílio médico e psicológico, investiu em reeducação alimentar, medicação e exercício físico. Segundo explica, o motivo para procurar ajuda foi estético. “Me olhava no espelho e não gostava do que estava vendo.” Mello conta que conseguiu emagrecer 35 kg nos últimos três anos. “Já cheguei a pesar menos, mas não me senti bem. Hoje eu gosto, tenho um corpo delineado, estou feliz com o peso que tenho.”

“É preciso considerar que existem pessoas obesas e existem pessoas gordas, e nos dois casos são objeto de gordofobia”, afirma a advogada capixaba Mariana Vieira que, ao lado da ativista Rayane Souza, também formada em direito, criou o projeto Gorda na Lei, um perfil no Instagram sobre os direitos das pessoas gordas que oferece informações sobre a possibilidade de ação judicial em casos de gordofobia. “Nós tentamos mostrar que às vezes a pessoa gorda não tem uma doença, está feliz com o próprio corpo, diferente de uma pessoa obesa que tem problemas de saúde ligados ao peso corporal.” Para a nutróloga Andrea Pereira, além de preconceito, falta informação sobre a doença obesidade. “Os próprios pacientes se sentem desencorajados de buscar tratamento, chegam no consultório com um ar de derrota, envergonhados e quase se desculpando por não terem emagrecido tanto quanto eles mesmos e as pessoas em torno acham que deveriam.” Ela conta que a necessidade de informar a população sobre o que é a doença, seu tratamento e diagnóstico e de combater a discriminação a levaram a criar, com o cirurgião bariátrico Carlos Schiavon e a psicóloga clínica Andrea Levy, a ONG Obesidade Brasil, filiada à World Obesity Federation e à Global Obesity Patient Alliance, organizações de auxílio às pessoas com obesidade. “A ideia equivocada de que a perda de peso depende apenas do próprio comportamento acaba martirizando os pacientes porque o estímulo ambiental é muito maior do que a capacidade de se autorregular”, afirma a psicóloga Andrea Levy. “Ninguém escolheu ser gordo na vida, essas pessoas precisam de tratamento e muitas vezes nem fazem ideia de que têm uma doença. Quando entendem e procuram os especialistas corretos, a vida fica mais fácil.”


A advogada Mariana Vieira lembra que muitos profissionais da saúde atendem os pacientes gordos de uma maneira não humanizada porque o emagrecimento é colocado como solução de todos os problemas. “Muitas vezes a pessoa vai ao médico para tratar uma situação e se sente constrangida e humilhada pelo profissional por causa do seu peso”, afirma. “A pessoa que não é especialista tem direito de não ter informação, mas o profissional de saúde não”, reforça a nutróloga Andrea Pereira. “As pessoas com obesidade podem e devem cobrar respeito ao serem atendidas. Muitas vezes os profissionais de saúde, por falta de informação e de formação, não consideram a obesidade uma doença e as tratam com preconceito.” Para aumentar o estigma existe ainda hoje um pré-julgamento baseado na aparência física e na valorização da magreza, comenta Rayane Souza, do projeto Gorda na Lei. “Acredito e faço parte do movimento de aceitação do corpo que busca quebrar os padrões de beleza e idealização que a sociedade impõe. Mas eu entendi que, mesmo me achando uma mulher bem resolvida, isso não me blindava dos preconceitos do dia a dia, e vi a necessidade de trazer o aconselhamento jurídico para esse debate.” Ela conta que por mais que tenha aumentado a tomada de consciência, ainda existe um descaso e preconceito contra as pessoas gordas que se manifesta em piadas, desprezo e rejeição social de diversas naturezas. O movimento do qual Souza faz parte se estendeu para outras esferas. A expressão gordofobia ganhou destaque no país, foi tema do “Big Brother Brasil”, levou a cantora Anitta a desafiar os padrões de beleza ao incluir mulheres com sobrepeso em seus vídeos e provocou críticas acaloradas quando as perdas e ganhos de peso da estrela de música sertaneja Marilia Mendonça, que morreu tragicamente em um acidente aéreo, foram repetidamente mencionados pela imprensa.




“Acho que não existe pessoa gorda que não tenha passado por algum tipo de constrangimento, desde o cinto do assento do avião não fechar ou entrar em uma loja e não encontrar nada que caiba”, dizoator e apresentador Tiago Abravanel, que protagonizou esse tipo de discussão no BBB e lançou uma marca de roupa para quem veste plus size. “Eu nunca fui uma pessoa magra, por muito tempo fiz dietas malucas, fui para spa e me preocupei em seguir o padrão”, diz. “Hoje entendo que não preciso ser refém do meu corpo, aceito como ele é. Claro que cuido da minha saúde, mas acredito que a pressão estética causa tantos problemas físicos e psicológicos que estes sim deveriam ser pauta e não apenas a forma dos nossos corpos.”


https://valor.globo.com/eu-e/noticia/2022/08/12/obesidade-conheca-novos-tratamentos-e-a-mudanca-cultural-sobre-a-doenca.ghtml

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