• Dra. Luciana Umeda

Tratamento do Diabetes Mellitus Tipo 2 e da Obesidade com a Cirurgia Bariátrica


O diabetes Mellitus tipo 2 (DM2) é uma doença crônica, caracterizada pelo aumento constante dos níveis de glicose no sangue, sendo caracterizada pela dificuldade na produção e/ou ação da insulina, hormônio responsável pela entrada da glicose nas células. Esse aumento exagerado na glicemia, pode causar uma série de complicações como: doenças cardíacas, renais, oculares, nervosas e na circulação de sangue. Sabemos que tais complicações diminuem a qualidade e a expectativa de vida do paciente diabético.


Há uma íntima relação entre o aumento dos casos de DM2 e a elevação do peso corporal, sendo o tratamento de ambas patologias baseado em mudanças no estilo de vida e no uso de medicamentos. Dentre as medidas não farmacológicas o aumento da atividade física e a realização de uma dieta mais equilibrada são recomendações fundamentais. Temos um arsenal muito grande para o tratamento medicamentoso do diabetes nos dias atuais, porém as medicações mais modernas que não causam aumento de peso e/ou ajudam na sua perda, ainda são consideradas de custo elevado para a grande maioria dos brasileiros. Portanto, algumas medicações utilizadas para o controle do diabetes, podem causar aumento de peso e alimentar o ciclo vicioso estabelecido.


Um cirurgião americano chamado Walter Pories na década de 90, observou que alguns pacientes obesos e diabéticos que realizaram uma cirurgia bariátrica mista “Bypass Gástrico em Y de Roux” para perda de peso, apresentaram melhora importante dos níveis glicêmicos poucos dias após o procedimento cirúrgico, despertando pela primeira vez o interesse da cirurgia bariátrica para o tratamento do diabetes. Desde então a cirurgia bariátrica tem demonstrado ser uma ferramenta muito poderosa, efetiva e duradoura para o tratamento dessas duas patologias.


Para os pacientes diabéticos a cirurgia bariátrica está indicada quando o índice de massa corporal (IMC) está acima de 35kg/m2. Esse cálculo é realizado dividindo-se o peso pela altura ao quadrado. Porém recentemente em 2017 o Conselho Federal de Medicina (CFM) lançou uma nota indicando a “cirurgia metabólica”, com objetivo principal de restaurar controle glicêmico, em pessoas com menor grau de obesidade, especificamente com um IMC maior que 30, buscando reduzir o risco das complicações.


Dentre as técnicas cirúrgicas mais utilizadas temos, as cirurgias que restringem o volume do estômago (restritivas), as que desviam uma parte do intestino reduzindo a absorção de nutrientes (disabsortivas) e as que restringem e desviam ao mesmo tempo (mistas).


Falando das cirurgias restritivas, a mais popular hoje em dia é a cirurgia da gastrectomia vertical em manga (Sleeve). Essa cirurgia se tornou a cirurgia mais realizada nos Estados Unidos. Nessa modalidade cirúrgica confecciona-se uma bolsa horizontal no estômago, não havendo desvio do intestino.


Sobre as cirurgias disabsortivas, temos as cirurgias biliopancreáticas. Nessa modalidade de cirurgia temos um desvio importante do intestino e uma perda pronunciada de nutrientes. Apesar de ser uma cirurgia que exige atenção médica devido a perda constante de nutriente, é a que mais declina os níveis de glicose nos pacientes diabéticos.


A cirurgia mista do Bypass gástrico em Y de Roux, é a cirurgia bariátrica ainda mais realizada no Brasil. Nessa técnica o estômago é dividido em duas partes através de “grampos cirúrgicos”: uma parte maior que ficará excluída do trânsito alimentar, e a outra parte muito menor onde passará o alimento. Além disso, é realizado um pequeno desvio no intestino, alterando a trajetória da comida.


Através dessas cirurgias citadas, há melhora ou mesmo desaparecimento do diabetes, antes mesmo de haver a perda de peso pronunciada, por uma série de mecanismos:


1.0 Mudanças de alguns hormônios produzidos no intestino:

Nas cirurgias onde há retirada ou exclusão de uma parte do estômago, ocorre a diminuição de um hormônio chamado ghrelina, que estimula a fome e prejudica a ação da insulina. A diminuição da ghrelina estimula a perda de peso e melhora o controle do diabetes. Além disso, as modificações realizadas na anatomia do trato digestivo pela cirurgia, permitem a passagem mais rápido da comida ao intestino. Isso causa aumento de alguns hormônios que aumentam a secreção de insulina e estimulam a sensação de saciedade como: peptídeo semelhante ao glucagon (GLP-1), peptídeo tirosina-tirosina (PYY) e oxintomodulina (OXM). O GLP-1 também inibe o glucagon, hormônio responsável por aumento da glicose no sangue.


1.1 Mudanças na microbiota intestinal

Sabemos a cirurgia pode causar mudanças nas bactérias que habitam o intestino. Essas novas bactérias poderiam ser responsáveis para melhora da glicemia, pela perda de peso e causar diminuição da inflamação


1.2 Alterações na bile

Sabemos que há aumento da concentração de bile após algumas modalidades cirúrgicas. Sugere-se que esse aumento possa melhorar o controle da glicemia, estimulando o hormônio GLP-1 e melhorando a seleção de novas bactérias moradoras do intestino ( microbiota)


Através desses mecanismos citados, a cirurgia bariátrica aparece como uma boa ferramenta para controlar a obesidade e o DM2, duas epidemias mundiais.


Ressaltamos que é fundamental ter uma equipe com vários profissionais da área da saúde para acompanhar os pacientes antes e após a cirurgia, como: médicos, psicólogos, nutricionistas e educadores físicos.


Artigo desenvolvido por: Dra. Luciana Umeda