• Viviane Pereira

Ó Abre Alas, que na Passarela do Samba Gordofobia Não Tem Lugar

A bateria emite os primeiros sons e o coração acelera no mesmo ritmo. “Hoje eu vou pra galera / Deixa a tristeza pra lá”. Entoando os versos do samba-enredo da Escola de Samba Acadêmicos do Tucuruvi, Tatiana Laranjeira da Silva sabe que estar ali, como passista, bem na frente da bateria, é muito mais do que a realização de um sonho: é também uma conquista.


“Sou do Carnaval desde criança. Já toquei na bateria, saí na ala da comunidade, mas sempre tive sonho de ser passista”, conta Tatiana, de 31 anos, comentando que como seu corpo não segue os padrões da sociedade, não tinha espaço para ela como passista dentro do Carnaval. Felizmente o verbo pode ser usado no passado, já que desde 2017 a Acadêmicos do Tucuruvi criou uma ala plus size para quebrar esse preconceito.

Tatiana revela que no início era difícil, porque sentia vergonha de se expor, pelo fato da sociedade ser muito preconceituosa. Ela estreou como passista na ‪avenida em 2018‬. No começo não conseguia se desenvolver tanto, com medo das pessoas rirem ou demonstrarem preconceito. “Depois de dois ou três meses eu realmente entendi que o projeto é bastante interessante; fiquei muito feliz, mudou a minha vida. Eu vinha de um quadro de depressão muito forte por questões pessoais, por estar acima do peso, por não conseguir engravidar por isso – pelo menos era o que as pessoas me diziam”. Para ela, conseguir desfilar como passista foi a forma de se reencontrar. Por isso, afirma que a escola de samba é seu ponto de equilíbrio, seu ápice da felicidade. No primeiro desfile como passista, recorda, sentiu-se bastante envergonhada no início, mas depois que começou a dançar e ver que a sua dança contagiava outras pessoas, revela que foi sensacional.


Em 2019 a ala desfilou sobre um carro alegórico. “Esse ano a importância foi maior porque desfilamos na frente da bateria. A responsabilidade era muito maior e de fato fomos vistas como passistas. Foi uma emoção enorme, principalmente por causa da nossa história, por vir lutando todos os dias, por querermos representar outras mulheres gordas que gostariam de estar ali, mas por algum motivo não estão naquele lugar. Para mim é realmente um marco importante”.

A conquista de desfilar no chão, na frente da bateria, em uma ala com 40 meninas, veio com comemoração em dobro, já que a Acadêmicos de Tucuruvi ficou em segundo lugar e voltou ao grupo especial. Tatiana festeja a atuação da ala dentro dessa vitória. “Fizemos parte da evolução, conseguimos ajudar a escola a se levantar e voltar ao grupo especial. É algo esplendoroso saber que muitas pessoas vão ver a gente dançar e representar as mulheres.

Foi emocionante, meu melhor ano. Nossa alegria, nosso samba no pé, nosso alinhamento foi muito perfeito. Bonito ver que conseguimos, depois de tanta luta, tanto choro, uma ajudando a outra, uma levantando a outra, e no final deu tudo certo e cumprimos nosso papel na avenida. Conseguimos marcar a história da escola”.

A experiência foi especial também para Jeane Melo, 42 anos, que mostrou o samba no pé na avenida pela primeira vez, estreando na ala plus size da Acadêmicos do Tucuruvi. Ela conta que mal assistia ao Carnaval pela televisão e foi parar no desfile quase por acaso. Uma amiga a chamou para fazer companhia, porque não queria ir sozinha. “Como eu moro perto da quadra e ela na Zona Sul, ficava mais fácil ela dormir em casa”. A amiga desistiu porque ia viajar, mas Jeane gostou e resolveu continuar.

“Quando minha amiga me chamou para a ala plus size, perguntei para que eu iria, já que é uma ala só de gordinhas. Ela me disse: ‘E você é o que?’ Para eu aceitar que estava gordinha foi difícil”, revela sorrindo. A aceitação veio após uma conversa com a amiga, que lhe perguntou se o tamanho G vendido nas lojas comuns ficava bom para ela. Quando Jeane disse que ficava apertado, a amiga a levou a uma loja plus size. “Minha amiga pediu uma peça tamanho G1 e eu olhei para a vendedora morrendo de vergonha. Quando experimentei, serviu certinho. A moda comum não dá para mim, fica apertada; eu tenho ombro largo, panturrilha larga e estômago alto. Sou ex-atleta, meu corpo tem muito músculo e depois da gravidez eu adquiri gordura em cima do músculo. Por isso aceitar que eu estava gordinha foi complicado; eu sempre falava que era forte e não gordinha”.

A descoberta de uma loja com tamanhos que lhe cabem bem fez Jeane sentir-se melhor e vestir peças que normalmente não usaria, como o cropped plus size que adorou e comprou. “Eu não vestiria nunca um cropped. Agora eu posso vestir. Ficou muito lindo”. Diante dessas experiências, ela relata que sente preconceito quando vai se vestir, porque não há muitas opções nas lojas em geral.

Já no Carnaval, na ala plus size, garante que se sentiu bastante acolhida e gostou da experiência. “Algumas meninas desfilavam em outras alas, de camiseta e bermuda, mas queriam estar lindas, são vaidosas. Ficamos lindas de maiô, sainha de tulê, sandália e pernas de fora”, festeja.



Gordofobia: de onde vem esse preconceito?

“Um preconceito se desenvolve quando um grupo de pessoas determina se uma coisa é boa ou má e isso vai se proliferando”, define Andrea Levy, psicóloga especialista em obesidade e cirurgia bariátrica. “Nós crescemos em ambientes com padrões determinados, sejam estéticos, de conduta e até de ética. Quando alguém parece destoar desse padrão, muitos se sentem no direito de ameaçar de diversas formas, mais ou menos explícitas”.

O preconceito pode se acirrar em períodos como o Carnaval, em que as diferenças de religião, sexualidade, etnia ou forma do corpo geram mais incômodo. “Daí as reações de xingar e até agredir” comenta a psicóloga.

Estas ações agressivas do preconceituoso visam a inibir o outro na sua forma de ser, pensar ou se comportar. “É como se o agressor tratasse o obeso como um criminoso que não tem os mesmos direitos que ele. Vê como uma ameaça” diz Andrea Levy, lembrando que ambiente do preconceito é crônico. No caso da gordofobia, além das eventuais agressões, há um clima implícito cotidiano, da dificuldade de se expor, enfrentar olhares de reprovação e ironia, que interfere até na hora de concorrer a uma vaga de emprego.

“É muito pesado. Gera sensações de isolamento que podem levar à fobia social, depressão e transtornos de ansiedade. Além disso pode também desenvolver comportamentos de restrição e compulsão alimentar por acharem que precisam estar num determinado padrão corporal para se sentirem pertencentes à sociedade”.

Chegar a este padrão cobrado pela sociedade é difícil. Porque não se trata de ‘força de vontade”, “falta de caráter”, “se controlar”, como muitos julgam. Andrea Levy lembra: “A pessoa obesa tem uma doença multifatorial crônica. Ela terá de lutar em algum grau pelo resto da vida com esta condição”. E reconhece que ainda é muito difícil a sociedade reconhecer a obesidade como doença.

Este embate e mesmo as recentes manifestações de aceitação do corpo não podem levar ao outro extremo da gordofobia, a gordofilia, com bordões como “tem de ser gordo mesmo”. E adverte: “Estamos falando de saúde e não de estética. A beleza existe em todos os tamanhos e o motivo de tratarmos a obesidade não tem a ver com tornar ninguém mais bonito” Depois de condenar esta apologia à obesidade, a especialista resume “Precisamos mostrar que a obesidade é uma doença e que tem tratamento. Mas a liberdade individual tem que ser respeitada. Precisamos combater o preconceito para que todos tenham o direito de existir como são”.

Para que se possa acabar com a gordofobia e outros preconceitos, a psicóloga acredita que é essencial educar as crianças, para que não reproduzam comportamentos preconceituosos.


Representatividade importa


A história de Tatiana, que passou a vida participando dos desfiles da escola de samba até conseguir realizar o sonho de ser passista sem sofrer preconceito pelo seu corpo, mostra a importância de quebrar preconceitos, de acabar com as limitações e criar modelos positivos para inspirar quem enfrenta a gordofobia.

“Muitas mulheres me chamam e dizem que eu as represento como passista plus size. Isso não tem preço”, avisa Tatiana, que considera essa representatividade o mais importante. “Ouvir isso, saber que eu motivo mulheres, que eu encorajo mulheres lindas a quererem ser como eu sou, para mim isso não tem preço”.

Às mulheres que enfrentam o preconceito e sofrem sem conseguir buscar seus sonhos por conta das pressões sociais, Tatiana deixa seu recado: “Eu costumo falar para as meninas que entram na ala que elas podem ser o que quiserem. Não é a sociedade que vai dizer que elas não podem estar ali. Elas podem, sim. Elas podem ser passistas, podem ser mães, podem ser bonitas. Não é a sociedade quem vai ditar as regras da vida delas, são elas que vão dizer onde e como querem estar. Que elas se permitam olhar no espelho e saber que são lindas da forma que são”.

Tatiana quer dividir com outras mulheres o que sentiu, a alegria de poder realizar um sonho, estar entre as passistas, felicidade que lhe fortaleceu para vencer a depressão e trocar a tristeza por um sorriso. Afinal, como bem diz o tema do samba-enredo da Acadêmicos do Tucuruvi desse ano, “Sorrir é e sempre será o melhor remédio”.


Artigo escrito por: Viviane Pereira.